quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Tratado sobre a tolerância, de Voltaire


Antonio

Hoje pela manhã estive na Escariz do Shopping Riomar e me deparei com um excelente livro sobre o qual tive oportunidade de fazer um trabalho no segundo ano do Ensino Médio: Tratado sobre a tolerância, do filósofo iluminista Voltaire, escrito no século XVIII, época em que conflitos religiosos eram bastate comuns. Nesse livro, Voltaire argumenta a favor da tolerância religiosa. Diante de uma obra tão magnífica a um preço tão pequeno para a sua quantidade de reflexões (estava custando hoje apenas R$ 12,00, a edição que eu comprei foi a da imagem), não hesitei em realizar a compra. Para os senhores terem uma idéia do conteúdo do livro, transcrevo a seguir o trecho que considerei de todos o melhor (alguns podem já tê-lo recebido por e-mail, eu mandei naquele ano, mas nunca é demais relê-lo, porque realmente é muito bom). Para os que possuem o livro, ele se encontra no Capítulo XI - Sobre os abusos da Intolerância.

Um abraço a todos e até a próxima.

Se devemos aprender com alguém como nos conduzir em nossas disputas intermináveis, é certamente com os apóstolos e os evangelistas. Havia motivos para provocar um cisma violento entre São Paulo e São Pedro. Paulo diz expressamente em sua Epístola aos Gálatas [I] que resistiu a Pedro porque este era repreensível, porque usava de dissimulação assim como Barnabé, porque ambos comiam com os gentios antes de chegada de Tiago e em seguida retiraram-se secretamente, e separaram-se dos gentios com receio de ofender os circuncisos. Acrescenta Paulo: “Quando, porém, vi que não procediam corretamente segundo a verdade do Evangelho, disse a Cefas [Pedro] na presença de todos: Se, sendo tu judeu, vives como gentio, e não como judeu, por que obrigas os gentios a viverem como judeus?”

Esse era um tema de querela violenta. Tratava-se de saber se os novos cristãos se judaizariam ou não. O próprio São Paulo, nessa época, foi oferecer sacrifícios no templo de Jerusalém. Sabe-se que os quinze primeiros bispos de Jerusalém foram judeus circuncisos, que observavam o sabá e abstinham-se das carnes proibidas. Um bispo espanhol ou português que se fizesse circuncidar e observasse o sabá, seria queimado num auto-de-fé. No entanto, a paz não foi perturbada, por causa dessa questão fundamental, nem entre os apóstolos, nem entre os primeiros cristãos.

Se os evangelistas se assemelhassem aos escritores modernos, teriam um campo bem vasto para combater uns aos outros. São Mateus [II] conta vinte e oito gerações de Davi a Jesus; São Lucas [III] conta quarenta e uma, e essas gerações são absolutamente diferentes. Contudo, não se vê nenhuma dissensão surgir entre os discípulos sobre essas contradições aparentes, muito bem conciliadas por vários padres da Igreja. A caridade não foi ferida, a paz foi conservada. Que lição maior para tolerar-nos em nossas disputas e sermos humildes em tudo o que não entendemos!

São Paulo, em sua Epístola a alguns judeus de Roma convertidos ao cristianismo, dedica todo o final do terceiro capítulo a dizer que só a fé glorifica e que as obras não justificam ninguém. São Tiago, ao contrário, em sua Epístola às doze tribos dispersas por toda a terra, capítulo II, não cessa de dizer que é impossível ser salvo sem as obras. Aí está o que separou duas grandes comunhões entre nós [IV], mas o que não dividiu os apóstolos.

Se a perseguição contra aqueles com quem disputamos fosse uma ação santa, cumpre admitir que o que matasse o maior número de heréticos seria o maior santo do paraíso. Que figura faria um homem que tivesse se contentado em despojar seus irmãos e em jogá-los no cárcere, perto de outro, mais zeloso, que teria massacrado centenas deles na Noite de São Bartolomeu? Eis aqui a prova.

O sucessor de São Pedro e seu consistório não podem errar; eles aprovaram, celebraram, consagraram a ação da Noite de São Bartolomeu; logo, esta ação era muito santa; logo, de dois assassinos iguais em piedade, o que tivesse estripado vinte e quatro mulheres huguenotes grávidas deve ser glorificado em dobro em relação ao que só tivesse estripado doze. Pela mesma razão, os fanáticos das Cevenas deviam pensar que seriam glorificados na proporção do número de padres, religiosos e mulheres católicas que tivessem liquidado. Estranhos títulos, esses, para a glória eterna.

Notas:

[I] II, 14.
[II] I, 17.
[III] III, 23-31.
[IV] Católicos e protestantes

VOLTAIRE, François-Marie Arouet. Tratado sobre a tolerância: a propósito da morte de Jean Calas. São Paulo: Martins Fontes, 2000.

Esse trecho foi, na verdade, transcrito de outra edição da editora Martins Fontes, a que tive oportunidade de ler pela primeira vez. As notas também são dessa edição.

1 comentários:

Antônio Vinícius disse...
16 de janeiro de 2011 02:22  

Quer exemplo melhor de tolerância?

Protestante assume presidência da Academia Pontifical de Ciências do Vaticano - Ciência - Notícia - VEJA.com

O objetivo é ciência, não religião. Então, qual o problema de unir duas pessoas com crenças diferentes? Sigamos esse exemplo!