quarta-feira, 17 de novembro de 2010

A modernidade oligárquica de Bruzundanga


Antonio

Quem está estudando para o vestibular da UFS, a essa altura do campeonato já deve ter lido (ou pelo menos conferido algum resumo sobre) o romance Os Bruzundangas, de Lima Barreto, onde o autor critica a República do Brasil, naquela época sob o domínio das elites do sul, chamando-a pelo pseudônimo de República da Bruzundanga e atribuindo-lhe diversos personagens e histórias fictícias que lembram em muita coisa a realidade do nosso país, mesmo nos dias de hoje.

O autor do texto a seguir estabeleceu uma comparação bastante interessante entre o Brasil atual e o Brasil relatado em Os Bruzundangas, usando como base os recentes ataques preconceituosos de paulistas a nordestinos pelo Twitter, que também são comparados, no texto, às diferenças entre o norte italiano industrializado e o sul agrário existentes antes do processo de unificação política da Itália. No final do texto são citadas também outras obras da literatura brasileira que fazem críticas à nossa sociedade.

Sem mais comentários para não dizer o texto todo antes que vocês possam lê-lo, vou ficando por aqui.

Um abraço a todos e até a próxima,

Vinícius

A modernidade oligárquica de Bruzundanga

Quarta-feira, 17/11/2010, por Luiz Ricardo Leitão

As eleições já se acabaram, e tudo continua como dantes na República de Bruzundanga. É claro que os ânimos ainda estão acirrados após mais uma derrota tucana, com manifestos virulentos a circular pelas chamadas ‘redes sociais’ (?!), mas isso não é novidade a leste de Tordesilhas. Desde 1930, se bem me lembro, a burguesia paulista (cujos lucros com a lavoura cafeeira impulsionaram a industrialização do país) se julga a fração mais avançada e cosmopolita destas plagas, avocando para si o direito de gerir esta alucinada experiência periférica de capitalismo. Por isso, não estranho que jovens acadêmicos (?!) de Direito (?!) da terra da garoa escrevam em seu tuíter (arre, égua!) que “nordestino não é gente” e que o melhor favor que se faria a São Paulo seria matar afogado ao menos um desses “porcos imundos” que, segundo escreveu o advogado (?!) André Colli, “devastam as reservas florestais de sua cidade”. Isso sem falar de um grupo de universi(o)tários que logrou redigir um documento com o pomposo título de “São Paulo para os paulistas”, cujo mote seria “defender a cultura paulista contra quem inunda nosso Estado”.

Sob o véu do “regionalismo” misturam-se sem nenhum pudor diversos traços bastante singulares da formação socioespacial do país, cujo capital industrial e financeiro possui raízes no secular negócio da agroexportação (vulgo agro business, na língua da matriz). Embora se creia superior aos velhos coronéis do Nordeste, a burguesia cafeeira bandeirante nada mais é do que uma fração ‘moderninha’ do desigual e diferenciado processo de evolução capitalista da colônia. O mote não é exclusivo destas plagas: na Itália do séc. 20, a burguesia toscana, ao Norte do país, também se atribuiu uma posição de vanguarda, tratando de estigmatizar ao máximo os ‘rudes camponeses’ do Sul, em especial os napolitanos, odiados pelas elites de Milão & Cia.

Muita gente se ocupou desse mote nas letras tupiniquins, desvelando em obras memoráveis de nossa prosa de ficção aspectos indivisos desse processo. A maior contribuição desses narradores foi, sem dúvida, evidenciar ao público que os vícios e defeitos imputados ao nosso povo são, o mais das vezes, mera refração de vezos históricos das classes dominantes de Bruzundanga, tão bem descritas no limiar do século 20 pela pena irreverente e implacável de Lima Barreto. A bem da verdade, a desfaçatez e cinismo de nossas elites já viera à luz nas páginas lapidares de Memórias póstumas de Brás Cubas, do genial Machado de Assis, um sinhozinho crescido no ocaso do regime escravocrata. E ela reaparece de forma despojada e sincrética na figura de Macunaíma, em quem muitos pretendem ver um símbolo do povo brasileiro, ainda que não fosse esta a intenção de Mário de Andrade, que, com rara lucidez, reconhecia ser impossível estabelecer uma síntese de brasilidade nas primeiras décadas do século 20.

De minha parte, nunca hesitei em identificar nesse “herói sem nenhum caráter” um signo óbvio das elites brasileiras, convertido por um hábil ideologema em ícone das classes populares. Para tanto, basta ler com maior atenção a obra que Mário escrevera um ano antes, Amar, verbo intransitivo, um pequeno romance de formação da burguesia bandeirante.

Já em São Bernardo, de Graciliano Ramos, o narrador atribui dinamismo e força a um caboclo arrivista, o fazendeiro Paulo Honório, cujo empreendimento terminará por sucumbir à sua própria voracidade, ao passo que o latifúndio moroso e inabalável do velho coronel jamais perde seu valor. Quem quiser entender um pouco mais a política brasileira, carecerá de reler com outros olhos essa parábola do selfmade man tropical, incapaz de adivinhar, ao seu redor, a velha fábula da modernidade oligárquica, em que o novo, o mais das vezes, é apenas a roupagem de que o velho se serve para que tudo permaneça como dantes ao sul do Equador.

Luiz Ricardo Leitão é escritor e professor adjunto da UERJ. Doutor em Estudos Literários pela Universidade de La Habana, é autor de O Campo e a Cidade na Literatura Brasileira e Noel Rosa: Poeta da Vila, Cronista do Brasil.

Fonte: Análise | BRASIL de FATO. Acesso em: 17/11/2010.

1 comentários:

Antônio Vinícius disse...
17 de novembro de 2010 17:19  

Esse cara é irônico demais (veja quando ele usa ?!)